sexta-feira, 27 de junho de 2008

Fases ou livros de cabeceira


Para dias mais cinzentos. Virgílio Ferreira materializou o mundo, a vida, a morte e o amor em duas obras fundamentais: Para Sempre e Cartas a Sandra. Especialmente esta segunda obra reflecte quem de forma tímida encara o outro.

Voltarei a escrever-te? Para voltares a existir no que escrevo de ti. Demora-te hoje ao menos ainda um momento. Para olharmos a neve na montanha, os campos desertos, ouvirmos em nós o silêncio do mundo. (...) Há o meu desejo de te fixar na palavra escrita que te diz, para ficares aí com o milagre que puder. (...) Querida Sandra. De vez em quando volto a perguntar-te porque te escrevo. Sei naturalmente que é para estar contigo. (...) De todo o modo, como foi bom ter estado contigo nesta forma de não estares.

...

Porque curiosamente, onde menos te encontro é onde tu exististe. Desprendeste-te donde estiveste e é em mim que mais me acontece tu estares. Mas nem sempre. Quantos dias se passam sem tu apareceres. E às vezes penso é bom que assim seja para eu aprender a estar só. Mas de outras vezes tu rompes-me pela vida dentro e eu quase sufoco da tua presença. Ouço-te dizer o meu nome e eu corro ao teu encontro e digo-te vai-te, vai-te embora. Por favor. E eu sinto-me logo tão infeliz. E digo-te não vás. Fica. Para sempre.